poesias e textos

Friday, February 10, 2006

CONSIDERAÇÕES ACERCA DO LIVRO O PEQUENO PRÍNCIPE

O Pequeno Príncipe foi escrito por Antoine de Saint-Exupéry em 1943, um ano antes de sua morte. Embora pareça um livro para crianças, é na verdade um livro rico em alegorias e verdades profundas sobre o relacionamento humano. Seu escritor tinha alma de poeta e suas frases ainda hoje são muito citadas por inúmeras pessoas. Até quem nunca leu essa obra conhece alguns de seus famosos textos como o diálogo da raposa com o pequeno príncipe. Esse livro atravessou continentes e foi traduzido para muitas outras línguas, sendo seu original em francês.
Pertenço a miríade de estrelas tocadas pela bela história de O Pequeno Príncipe, e não consigo aprisionar o desejo de compartilhar as impressões que a obra me causou.
Conservarei, como sempre, as mensagens do autor entre aspas. Minhas considerações surgirão livres nesse texto para que o leitor saiba identificá-las.
Gostaria de lembrar que uma das maiores traves em nossa visão chama-se – preconceito. Por causa dele muitas vezes deixamos de crescer. Esse livro, apesar de contar a história de um menino de seis anos, não foi escrito para crianças. As crianças me desculpem, mas elas não têm maturidade para alcançar a sabedoria dessa obra abissal. Adultos, não permitam que o preconceito lhes impeça de descobrir as grandes verdades contidas nessa pequena obra.
Exupéry começa desnudando a nossa pequenez. Somos tão fúteis. Não conseguimos enxergar a essência das pessoas. Quando nos falam de alguém, queremos saber seu cargo, onde mora, como mora, quantos anos tem.
Tolos que somos, nunca perguntamos sobre o que essa pessoa pensa, quais os seus ideais. O que tem feito para tornar o mundo melhor. Interessa-nos apenas as suas referências sociais.
“As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: "Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que coleciona borboletas?”Mas perguntam: "Qual é sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?”Somente então é que elas julgam conhecê-lo.”
A seguir esse pequeno admirável, que transpira amor, nos apresenta a cor púrpura do verdadeiro sentimento.
“Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla. Ele pensa: "Minha flor está lá, nalgum lugar..." Mas se o carneiro come a flor, é para ele, bruscamente, como se todas as estrelas se apagassem!”
Aqueles que conhecem esse sentimento poderoso chamado amor compreendem o que o principezinho quis nos dizer. A vida só tem sentindo quando estamos ao lado de quem amamos. Se não temos nossos amados conosco, é como se estivéssemos absolutamente sós nesse planeta imenso.

O amor de que tratamos aqui se reveste de várias formas. Não só amor homem-mulher. Mas o amor entre os pais e os filhos, o amor entre irmãos, o amor de uma família e até entre amigos.

"Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos atos, não pelas palavras.”

Quantas vezes deixamos de enxergar o óbvio e nos apegamos a palavras ditas no calor da emoção, que podem não representar os nossos reais valores. Será que a nossa atitude não conta? Então basta um diálogo desastroso e todo o resto será apagado? Que amizade é essa tão frágil que facilmente se quebra? Onde a compreensão, a sensibilidade para conhecer o outro e dar-lhe uma chance para se desculpar?

“É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas”

Temos uma miopia emocional que não nos deixa enxergar todo o caminho percorrido. Interessa-nos apenas o pódio. O vencedor, para ganhar a coroa da vitória, antes teve que se submeter o longas horas de exercícios. Sacrificou momentos de lazer. Fez regimes severos – foi larva. Mas nós queremos nascer borboletas, lindas, leves, coloridas.

É preciso o estágio da larva. Conhecer a aspereza do solo, o olhar indiferente dos outros. É preciso lutar e não desanimar. Só assim nos tornaremos borboletas.

Para os líderes de hoje, o Pequeno Príncipe ensina que não devemos exigir das pessoas algo que não possam cumprir. Dessa maneira não só ficamos desautorizados como frustramos os que nos ccercam. Vejamos o trecho a seguir:
“Se eu ordenasse a meu general voar de uma flor a outra como borboleta, ou escrever uma trtragédia, ou transformar-se em gaivota, e o general não executasse a ordem recebida, quem - ele ou eu - estaria errado?... É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar, replicou o rei. A autoridade repousa sobre a razão. Se ordenares a teu povo que ele se lance ao mar, farão todos euma revolução. Eu tenho o direito de exigir obediência porque minhas ordens são razoáveis.”
Pode parecer estranho, mas muitas vezes somos extremamente severos conosco. Então, o rei de um dos planetas visitados pelo nosso pequeno ilustre, dá-lhe uma missão espinhosa:
“- Tu julgarás a ti mesmo, respondeu-lhe o rei. É o mais difícil. É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues julgar-te bem, eis um verdadeiro sábio.”

A rosa amava o Pequeno Príncipe, mas sabia que ele tinha que partir. Não tentou impedi-lo. Foi corajosa, desprendida. Vejamos o trecho da rosa:
“- Não demores assim, que é exasperante. Tu decidiste partir. Vai-te embora!
Pois ela não queria que ele a visse chorar. Era uma flor muito orgulhosa...”
Ah! Rosa, precisamos aprender a deixar que as nossas gaivotas voem livremente. Algumas fazem um vôo definitivo que nos partem o coração, despedaçam nossa alma, trituram o nosso corpo. Nem sempre conseguimos superar com rapidez a dor da perda. Difícil é continuar sozinho. Trilhar os mesmos caminhos, ouvir a mesma música, sentir o mesmo perfume e ao mesmo tempo perceber que nada mais é como antes. É preciso dizer com todas as letras alto e bom som, de coração: tu decidiste partir. Vai-te embora, sê feliz ainda que meus olhos não mais te alcancem, meus ouvidos não mais te escutem, minha mão não mais te toque.
É preciso aprender a enterrar os mortos. É preciso aprender com o passado e não querer transformá-lo em presente. É preciso viver o presente.
O sétimo planeta visitado pelo Pequeno Príncipe foi a Terra. Então o Príncipe encontra a raposa e trava um interessante diálogo no qual a raposa diz não poder brincar com ele porque não foi cativada. O menino, curioso, pergunta o que significa cativar.
“- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
“- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo.”
Quando cativamos alguém passamos a nos interessar por sua vida, seus projetos, seus sonhos. Sua alegria é também a nossa. Sua dor nós compartilhamos. Essa pessoa passa a ter toda importância para nós. Sua voz é destacada das demais, seus defeitos são amenizados por nossa afeição. A ofensa logo é esquecida e o que de bom nos diz será eternamente lembrado. “Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo.”

“Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra... O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo”.

Às vezes uma canção não nos diz nada. Mas se de repente essa mesma canção lembra alguém especial, ela passa a fazer toda a diferença. Uma frase dita por um estranho pode não significar nada. Entretanto, se proferidas as mesmas palavras por quem realmente importa para nós, essa frase soará como música. Outras vezes é um gesto que gravamos, um cheiro que registramos, um som de passos que se distingue de todos os outros. “E eu amarei o barulho do vento no trigo” apenas porque o trigo, que é dourado, assim como os teus cabelos louros, me fará lembrar de ti.



Prosseguindo o diálogo, a raposa diz que “a gente só conhece bem as coisas que cativou... Se tu queres um amigo, cativa-me!”
A raposa fala ainda sobre a alegria antecipada. Só os que realmente entendem o verbo cativar sabem do que ela está falando.
“Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.” E explica que são os ritos que fazem com que um dia seja diferente do outro.
Mas chegou a hora da partida e toda despedida é triste. O Príncipe, ao sentir a dor que a raposa não conseguia esconder no pranto que transbordava de sua alma, indagou por que quisera ser cativada se agora sofria. Que lucro teria?
A raposa lembrou-lhe que lucraria por causa da cor do trigo. Agora o trigo teria toda importância para ela. E disse que retornasse ainda uma vez para que lhe desse um presente.
Ao retornar para despedir-se, a raposa deu-lhe de presente uma sábia frase:
“Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.... Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”
Quando há uma perfeita sintonia não precisamos nem falar. Ás vezes um olhar é tão mais enriquecedor do que tantas palavras. É nesse momento de simbiose que enxergamos a alma do outro.
Somos responsáveis por aquilo que cativamos. Nosso jardim precisa de água, luz, cuidado. Se nossas rosas secarem será responsabilidade nossa.
Nosso principezinho encontrou-se no deserto com um piloto que fez uma aterrissagem forçada por causa de uma pane no motor da aeronave.
Esse pequeno ser é fiel ao amor de sua flor que deixou lá no seu pequenino planeta. Olhando o céu estrelado ele comenta que as estrelas são belas por causa de uma flor que não se vê.
Então, carregando nos braços o pequeno adormecido, o piloto comenta: "O que tanto me comove nesse príncipe adormecido é sua fidelidade a uma flor; é a imagem de uma rosa que brilha nele como a chama de uma lâmpada, mesmo quando dorme..."

“Os homens do teu planeta, disse o principezinho, cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim... e não encontram o que procuram... E, no entanto o que eles buscam poderia ser achado numa só rosa, ou num pouquinho d'água... Mas os olhos são cegos. É preciso buscar com o coração...”
O pequeno príncipe nos exorta a valorizar as rosas do nosso jardim, a beber da nossa fonte.
“A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar...”
Aproxima-se o momento da despedida entre o pequeno príncipe e seu amigo do deserto. É um outro momento de lança no peito. Será à noite. Ele se deixará picar por uma cobra venenosa para que morra e, assim, possa voltar ao seu planeta e cuidar da rosa que tanto ama. Por nada ele se afastará do sonho de rever a sua rosa. Enfrentará a escuridão da morte, o pavor que a antecede pelo simples prazer de rever o amor de sua vida – a sua rosa, única no mundo.
Ele não quer que seu amigo o veja morrer, pois sabe que irá sofrer e quer poupá-lo desse sofrimento. Quer dar-lhe um presente... o seu sorriso.
“As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu, porém, terás estrelas como ninguém... Quando olhares o céu de noite, porque habitarei uma delas, porque numa delas estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem rir!
- E quando te houveres consolado (a gente sempre se consola), tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo. Terás vontade de rir comigo. E abrirás às vezes a janela à toa, por gosto... E teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Tu explicarás então: "Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!" E eles te julgarão maluco. Será uma peça que te prego... Será como se eu te houvesse dado, em vez de estrelas, montões de guizos que riem...
- Esta noite... tu sabes... não venhas.
- Eu não te deixarei”.
Quantas vezes fazemos promessas que não cumprimos. Mentimos? Não, apenas naquele momento em que nos entregamos inteiros somos verdadeiros. Verdadeiros ao que sentimos. Depois, esse sentimento nos abandona. Viramos apenas uma casca. A aura se foi.
”- Tu compreendes. É longe demais. Eu não posso carregar este corpo...É muito pesado. Mas será como uma velha casca abandonada. Uma casca de árvore não é triste... Será bonito, sabes? Eu também olharei as estrelas. Todas as estrelas serão poços com uma roldana enferrujada. Todas as estrelas me darão de beber...Será tão divertido! Tu terás quinhentos milhões de guizos, eu terei quinhentos milhões de fontes...”
Quantas vezes nos apegamos a uma casca sem vida, porque o que ali existia já se foi para outro planeta. Aprendamos com o pequeno príncipe a enxergar aquilo que só se vê com o coração.
27/12/05
Iara Mesquita

1 Comments:

  • At 12:39 PM, Blogger Aldenia said…

    Iara foi bom relembrar a estória do Livro O Peq. Príncipe. A forma como você comentou e me reavivou a memória foi espetacular, os seus comentários são apropriados e feitos de uma forma objetiva e compreensiva. Gostei muito! Penso que vou reler o livro novamente.
    Abraços, Aldênia Lira

     

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